ILHA ANCORADAPonto de encontro
“É preciso fincar os pés na terra.” Manuel Lopes
O sentimento que desde há muito fez parte do homem cabo-verdiano foi a de ter uma vida melhor em busca de novos destinos, a procura do seu pão-nosso de cada dia.
Mas essa busca de soluções para os seus problemas além fronteira, acarreta consigo difíceis circunstancias que o faz pensar e repensar se realmente esse é o melhor caminho a seguir. E esta peça focaliza essencialmente esse dilema, esse dualismo a que se submete o cabo-verdiano perante uma dura realidade vivida aqui nessa terra de morabeza, serenata e “amdjer”, colocando-o entre o querer ficar e ter que partir.
Maninho, o protagonista desta peça, deparará frente a frente com essa mesma situação, e terá que tomar a difícil decisão de partir ou ficar. Mas Maninho não vai deixar-se levar pela vontade do seu pai, que é de ver o seu filho trabalhar de “riba” de água de mar juntamente com ele. Apesar de muito confuso com esta situação, optará por ficar e lutar na “rotcha” firme. Porque” ilha que ta balança, a ilha que ta encalha e nem ilha ta ba pa fund”.
Regressara a casa, para rever o seu grande amor. Abraça-la como fazia dantes, brincar no seu corpo pequenino e ágil, sentir seu calor de carvão rijo. Sim para ter a certeza que estava regressando a casa deveras, para sentir entre os braços o lume de uma vida que voltava a acender. A alegria do viver tranquilo de família, melhor que a aventura do mar e a insegurança de destinos desconhecidos.
Á volta disto se vai desenrolar toda uma história de sonhos, de grandes decisões, de amor, e de muitas dúvidas, tendo como entidade patronal o mais importante movimento literário de Cabo Verde, traduzida numa revista: Claridade.
A revista Claridade é tida como uma afirmação de emancipação cultural, social e politica da sociedade cabo-verdiana. O contributo dos escritores da Claridade foi importante para um novo modo de expressão, com base no entendimento das raízes do homem cabo-verdiano, da sua personalidade, construída a partir de elementos étnicos e na captação do modo de agir e sentir do homem inserido no seu espaço.
Foram convidados para esta peça as delirantes
Virgens Loucas,
de autoria de António Aurélio Gonçalves, o Chico Zepa, que não embarcou por causa das paródias, proveniente do romance
Chiquinho, de Baltasar Lopes, o Zé Viola, do romance
Chuva Braba, para contracenarem com alguns dos personagens, entre dos quais o protagonista Maninho, do conto
“Jamaica Zarpou”, de Manuel Lopes, ainda alberga algumas passagens, bem marcantes e trazendo com ela todo um sentimento de ódio, intolerância e imposição e divergências, retiradas do romance
“Chuva Braba “ desse mesmo autor, constituindo assim um ponto de encontro entre esses diferentes personagens criadas pelos que são considerados os impulsionadores de uma era de escritores das ilhas sem igual.
O resultado que se obteve a partir desse ponto de encontro é o que chamamos hoje de
Ilha Ancorada, uma nova versão desses textos que foram adaptados e rescritos pelo João Branco e a Eillen Barbosa, contando com a ajuda dos outros demais membros dessa família do psicoteatro. Agora já na recta final anseia-se pelo grande dia, que é já na próxima sexta feira, onde 13 pequenas e grandes estrelas brilharão no palco pela primeira vez, acompanhadas por uma excelente equipa técnica.
SANDRA FONSECA